Publicado por em Especiais, Galeria, Mídia | 13 de dezembro

Tradução & Ensaio fotográfico: Another Man

Harry “lançou” oficialmente a sua carreira solo sendo a estrela da revista Another Man, em setembro de 2016. Foi durante o ensaio para ela que o cantor disse adeus ao cabelo longo — que foi doado para uma instituição que faz perucas para crianças com câncer — e estreou o corte que seria utilizado mais tarde por seu personagem Alex no filme Dunkirk. Todo o ensaio também foi feito na cidade natal de Harry, Cheshire.

Naturalmente, não poderíamos deixar passar a matéria completa, com entrevistas feitas por ninguém menos que Sir Paul McCartney e pela apresentadora Chelsea Handler e um depoimento de sua irmã, Gemma Styles, além de uma introdução com um depoimento dos diretores da revista sobre o processo de trabalhar com Harry.

Fazendo a Another Man com Harry Styles, por Olivia Singer
[original]

Há poucas figuras tão reverenciadas na cultura contemporânea quanto Harry Styles. Ele é o garoto-propaganda de uma geração, uma figura cujos posts do Instagram são assunto de jornal e cuja ascensão à fama foi documentada tão minuciosamente que seria de se pensar que é um livro aberto. Ainda assim, ao longo de sua carreira, ele permaneceu um tanto envolto em mistério: fora a publicidade que envolve o One Direction, ele é surpreendentemente reservado, completamente adepto da máxima “menos é mais”. Agora, ele está embarcando em uma carreira própria –tanto como ator quanto como artista solo—e procurou a Another Man para celebrar sua independência.

“Quando soubemos que ele tinha escolhido a Another Man para fazer algo assim, pareceu uma grande responsabilidade”, explica Alister Mackie, que fundou a revista em 2005 e hoje é seu diretor criativo. “Ele simplesmente me mandou uma mensagem e disse ‘eu quero fazer algo com vocês’ e eu senti que tinha que dar a ele a Another Man definitiva, a experiência completa, para fazer isso corretamente. Ficou claro imediatamente que havia muito mais profundidade nele que em uma estrela normal de boyband, então pensamos ‘vamos fazer tudo sobre ele’.” O que isso significou foi uma edição que gira em torno de Styles –de três matérias de capa, cada uma imersa em uma faceta diferente de sua persona, a um arquivo íntimo de sua memorabilia pessoal—em que ele mesmo trabalhou do começo ao fim. É uma exploração completa e coesa da personalidade de Styles, vista pelas lentes distintas da Another Man.

A forma com que Mackie começa a criar uma edição da revista é um tanto incomum na era digital: ao longo de uma miríade de paredes de moodboards, ele compõe um scrapbook físico de imagens que operam como um tipo de mapa visual para a narrativa. Durante o processo de planejamento, Styles visitava o estúdio de Mackie em Shoreditch para dar uma olhada no material, desta vez cheio de fotos e memórias de popstars, Mick Jagger e John Lydon, e cópias da Oh Boy! –uma revista de música pop e punk dos anos 70 que serviu como ponto de partida para a pesquisa de Mackie. “Ele aparecia usando um moletom com capuz, sozinho, totalmente discreto” e os dois reviam os layouts, exploravam referências e selecionavam edições. “Ele confiou muito em nós durante todo o processo”, diz Mackie, “ele sempre dizia ‘eu escolhi você, então faça o que você acha que funciona’, mas sempre que ele tomava uma decisão, ela parecia certa.”

Então os dois viajaram para Cheshire, cidade natal de Styles, com o fotógrafo Alasdair McLellan –um fotógrafo que certamente faz parte da família Another Man, e que embarcou em um projeto similar quando explorou as raízes de Mackie em Glasgow no Outono/Inverno de 2012. “Ele gostou muito”, lembra Mackie. “Nós fomos à escola dele, ao pub em que ele morava, à padaria em que ele trabalhava, e foi incrível. Eu queria que fosse como levá-lo para casa, e queria explorar a normalidade da criação dele. Foi uma experiência tão inspiradora –particularmente porque fizemos com alguém que está em um ponto tão alto da vida, e que está começando por conta própria. Foi um sentimento eufórico.”

Depois, Mackie procurou Willy Vanderperre, “nosso fotógrafo de capa oficial”, que já tinha fotografado ícones como Alex Turner, Cillian Murphy e Willem Defoe para a revista. “Nós queríamos mostrar o que Willy faz, o que eu faço com Willy, e colocar Harry na companhia daqueles homens”, ele explica. E, finalmente, ele procurou Ryan McGinley, cuja visão poética de Styles como um herói romântico foi transformada em um pôster que acompanha a edição. “Tem algo indie nessas imagens: de outro mundo e contemplativo”, Mackie reflete. “Aquele dia foi bem espiritual porque Ryan é tão quieto e encantador, e eles tiveram uma grande conexão. Harry chorou porque ele tem muita alergia –e, enquanto eu surtava pensando que a cara dele ia inchar, Ryan simplesmente continuou. Acabou sendo tão lindo vê-lo chorar assim –e, quando você trabalha com alguém tão espontâneo quanto Ryan, é assim que esses momentos mágicos acontecem.”

É uma exploração enciclopédica do mundo do ídolo pop, misturada com os códigos inimitáveis da Another Man, e é memorável em intimidade e estética. “Foi tudo tão emocionante que todos os envolvidos sentiam aquilo”, diz Mackie. “Nós nunca apostamos em uma só pessoa assim antes, e é o mais pop que já tivemos –mas ele é mais que um popstar. Muito mais. Foi uma jornada incrível.”

Harry liga para Sir Paul McCartney para um aulão sobre sobreviver a fama, se manter humilde e o segredo da carreira solo
[original]

Paul McCartney: É você, Harry?
Harry Styles: Sou eu.
Another Man: Paul, Harry está fazendo a transição da intensa experiência de estar em um grupo para se expor sozinho — você tem algum conselho para ele agora?
PM: É uma hora difícil porque ao estar em um grupo foi tem a força da união, mas você também tem os desentendimentos. Então você abandona a união e está sozinho, é como sair de casa. Mas você também pode tomar decisões mais fáceis. Não sei o que aconselhar, mas acredito que seja o mesmo de sempre: seja verdadeiro consigo mesmo, faça o que achar certo e é tudo o que eu diria.
AM: Vocês dois estiveram cercados pela fã mania — você se lembra do primeiro momento de loucura em que você percebeu que tudo tinha mudado?
PM: No começo, quando tínhamos um pouco de dinheiro, eu ia passar as férias na Grécia, em Corfu, e ninguém sabia quem nós éramos, enquanto na Inglaterra todo mundo nos conhecia. Então era bem pacifico na Grécia e eu lembro que dava uma volta pelo hotel e via a banda do hotel ensaiando e ficava com eles. Mas eu tinha que os convencer de que era alguém na Inglaterra e dizia ‘Estou em um grupo, sabia?’, e eles diziam, ‘Yeah, yeah, ok’, eles não estavam nem aí. E eu pensava que era ótimo, porque sempre poderia ir pra Grécia e fugir porque eles nunca vão saber quem sou eu. Na próxima vez que fui para a Grécia, todos sabiam quem eu era, estão esse foi um refúgio descartado. Acho que foi a primeira vez que percebi: “Oops, isso virou uma loucura”.
HS: Eu vou para casa na maioria das vezes. Meus pais ainda vivem onde eu cresci, então é um dos lugares que eu acho que mais consigo desaparecer, se for o que eu precisar fazer. Eu vou bastante para Cheshire e ando pelos mesmo lugares e é uma das coisas que nunca vai mudar, não importa o que acontecer. É legal ter coisas que não mudaram desde que eu tinha dez anos. Tenho sorte de ainda ter uma base lá.
PM: É a mesma coisa comigo com Liverpool, voltar para lá e ver a família. Você pode ser famoso, mas para eles ainda sou o “nosso Paul”. Isso te estabiliza e eu ando pelos mesmo lugares que ia quando era mais novo.
HS: Se você consegue se afastar da loucura e aproveitar pelo fato que é extraordinário, ver como uma coisa incrível por um segundo, é ótimo. Se você passa a achar que é como a vida é, é quando você perde o contato com a realidade. É bom ter pessoas que podem te dizer que você é um idiota e te dizer quando você tá errado. Eu acho que isso é tão importante quanto ter pessoas te guiando algumas vezes. Ir para casa provavelmente sempre é a resposta.
PM: É, eu acompanho isso. Na verdade, eu vou para a sua casa com você, Harry.
HS: Minha mãe amaria.
PM: Na minha família em Liverpool, ninguém é especial. As tias mais velhas, os tios e os pais eram as únicas pessoas especiais e as crianças não eram nada. Mesmo quando eu fiquei famoso com os Beatles, era só: “Certo, Paul, como você tá? Pegue uma bebida”, e você fica: “Yeah, certo, continue!” Isso só te lembra quem você é, quem você era e eu sempre voltava de Liverpool renovado. Eu sentia que aquilo era ótimo, eu era “eu” de novo.
AM: Qual a coisa mais estranha que um fã já fez para conseguir a sua atenção?
PM: Entrar no nosso quarto de hotel sem ser convidado era ótimo. Lembro de alguns incidentes, mas quando estávamos em Miami uma menina veio até o nosso quarto e acabou que ela era uma coelhinha da Playboy. Pensei: “Wow, isso é ótimo”. Mas não era. Muitas coisas assim acontecem, e com sorte você esquece da maior parte.
HS: Posso te fazer uma pergunta? Quando você saiu da banda e foi para a carreira solo, como foi o lado criativo disso? Obviamente que tem muita informação de quem você era quando estava no grupo, você achou difícil pensar: “Se eu fazer alguma coisa diferente, vai ser certo?” Como você abordou essa primeira experiência criativa?
PM: Bem, quando o Beatles terminou, eu estava compondo umas coisas. Então eu só fiz algo bem simples, que foi o primeiro álbum solo que eu lancei chamado McCartney e foi feito de maneira simples em uma sala só. Eu tinha que tirar aquilo de dentro de mim. Então nem pensei muito sobre ele, só fiz. Mas depois, tinha essa dificuldade — você pensa: “Bem, o que vou fazer agora, só fazer álbuns que parecem com o Beatles? Ou vou tentar ir em uma direção completamente diferente e fazer algo que não seja tipo o Beatles?” Então começamos com o grupo Wings, e eu pensei: “Foda-se, vou escrever algumas coisas que eu quero escrever e me afastar do que o Beatles possa ter feito com isso”. Uma vez que isso ficou estabelecido com alguns hits nossos, como Jet e Band on the Run e coisas assim, eu pensei que era ok fazer coisas tipo o Beatles de novo, porque já tinha provado um ponto para mim mesmo. Ultimamente eu faço muitas coisas do Beatles, e não importa mais, eu fico feliz em fazer qualquer coisa. Mas no começo era meio difícil, devo admitir.
HS: O legal é que eu não estou saindo da banda sentindo que eu não pude fazer o que queria. Eu amava e era o que eu queria, mas estou aproveitando compor no momento, experimentando coisas novas. Eu tenho me perguntando: “O que eu quero dizer?”
PM: É uma boa época na sua vida, depois que você saí de algo grande e famoso e agora você está curtindo fazer suas coisas, pode ser ótimo. Fico feliz que você esteja gostando.
HS: Obrigado! Você tá em tour no momento?
PM: Yeah, estou indo para a Noruega amanhã a noite e depois vou fazer um negócio para o Children in Need, que é o oposto completo. O negócio na Noruega é em um grande estádio e depois vai ser em um barzinho, o menor palco que eu já toquei. O que é bem legal, eu gosto de variar assim. Então, sim, estou por aí.
HS: Como foi a mudança de fazer a tour com um monte de gente para tocar músicas que você escreveu todas as palavras e fazer daquele jeito mesmo?
PM: Foi muito bom de verdade, porque tinha a liberdade. Quando estava no grupo, tudo era feito para você. Você vive numa bolha. E é até que legal mas você pode se cansar.
HS: Como você disse, é uma bolha em que as coisas acontecem ao seu redor e não é a vida real. É incrível mas não é realista. Então quando você saí é bom se atualizar em tudo.
PM: É bom voltar para a realidade.

Gemma Styles fala sobre crescer com seu irmão antes de ter que compartilhá-lo com o mundo.
[original]

É uma experiência estranha quando seu irmãozinho foge para se tornar um popstar. Uma coisa que a ascensão do Harry me ensinou é que de repente você não é mais visto como uma pessoa normal, mas uma “coisa” famosa que simplesmente ganhou vida quando uma câmera foi apontada para você pela primeira vez. As pessoas correm para juntar pedacinhos de informação sobre a vida dele, sejam elas compartilhadas pela vontade dele ou não, para tentar entender de onde veio essa criatura com esse cabelo e as botas prateadas.
Eu tinha três anos quando Harry nasceu. Por isso, as primeiras memórias que tenho dele são uma mistura meio nebulosa. São as pequenas coisas que eu guardo melhor: nossa antiga casa e jardim, a parede de escalada, o cachorro da família. Max era um cruzamento entre um border collie e um lurcher, o único filhote com manchas cinzentas, rabo enrolado e olhos multicor em uma ninhada completamente preta. Eu o escolhi porque me afeiçoei pela estranheza e nós o adorávamos. Quando Harry devia ter um ano de idade ele ficava no chão com o Max ou junto com ele na caminha dele, todo aquele cabelo loiro e os olhos azuis gigantes, depois do nada pegava seu boneco e enfiava na boca do cachorro, parecendo algo saído dos Simpsons. Max ficava um tanto confuso mas meio que simplesmente deixava ele continuar. Harry tem esse jeito.
Ele era bem barulhento. Acho que a primeira vez que eu me meti em encrenca séria foi quando eu o empurrei de uma cadeira porque ele simplesmente não parava de chorar. E aí teve aquela vez que o Harry de fato tentou me meter em encrenca, quando eu disse a ele que o WWE era todo encenado –ele levou como insulto pessoal e, para se vingar, disse à mamãe que eu era a pior coisa que ele conseguiu imaginar… uma traficante.
“Não, Harry, ela não é… ela tem nove anos.”
Quando eu comecei a estudar na Holmes Chapel, nos dias quentes, quando os carros estavam enfileirados do lado de fora e os pais estavam matando tempo, Harry –que nunca teve medo de chamar atenção– ficava em pé no banco de trás, entretendo todo mundo pela janela aberta. Mesmo naquela época ele tinha o tipo de magnetismo que fazia as pessoas simplesmente quererem assistir. Ele fazia as pessoas rirem. Os bebês ainda têm a tendência de olhar para ele agora –é meio esquisito.
Harry quando criança era animado. Ele não tinha dificuldade em fazer amizades e teve sua primeira namorada aos quatro ou cinco anos. Ele fazia o que queria, mas muitas vezes parecia que o que ele queria era fazer os outros felizes. Desde que era bem nova, eu sonhava em ser professora, e Harry fingia ser meu único aluno, fazendo as tarefas que eu preparava em casa e respondendo todos os nomes da lista de chamada com vozes diferentes. Às vezes um aluno imaginário não respondia, para eu poder ter a alegria completa de chamar novamente e perguntar à minha “classe” onde ele estava. Ele me dizia que o aluno estava de férias ou no dentista para eu poder marcar a falta oficialmente. Teve um aniversário, ou Dia das Mães, em que estávamos sentados dando o presente da mamãe. Harry estava fora de si, porque pela primeira vez ele tinha conseguido não estragar uma surpresa antes. Ela abriu o cartão e estava prestes a rasgar o papel de presente quando ele não conseguiu mais se conter e explodiu: “É uma bolsa!” Chegou tão perto.
Em uma viagem de família para Chipre, quando Harry devia ter uns sete anos, ele era particularmente bom em bater papo. Enquanto eu, a introvertida, passava as manhãs estocando presunto do buffet de café da manhã para distribuir aos gatos de rua do lado de fora do hotel, ele estava em volta da piscina com pessoas que tinham o triplo da sua idade. Quando pegamos o ônibus para voltar ao aeroporto no fim da viagem, tinha uma multidão de jovens adultas na calçada acenando para ele pela janela, gritando suas despedidas. Às vezes eu olho para ele agora e imagino como ele consegue fascinar as pessoas apenas sendo ele mesmo, mas na verdade ele sempre fez isso –só que agora mais pessoas podem ver.
Pelos primeiros meses depois de ele entrar na minha escola do ensino médio, a Holmes Chapel Comprehensive, algumas vezes os professores me diziam: “Então… eu conheci seu irmão.” Na maior parte do meu tempo por lá eu me sentia dolorosamente tímida –falar na frente da classe era meu pior pesadelo. Eu era atrapalhada, quieta e acho que bem fácil de lidar na aula. Mais tarde, quando eu fui treinada como professora e falar na frente da classe ainda era um pesadelo, dava para imaginar como o Harry pode ter sido um pouco difícil. Eu não poderia imaginá-lo sendo deliberadamente rude ou até mesmo particularmente desobediente (talvez sejam meus óculos cor-de-rosa), mas ele é brincalhão, fala muito e distrai –o que não é ideal para uma aula produtiva. Muitas vezes, eles não percebiam imediatamente que nós éramos parentes.
Harry não tinha muitas dificuldades, mas, três anos à frente, a área acadêmica era a única em que eu me destacava. Ele achava que tinha que se igualar a mim, nota por nota. Eu acho que ele ficava frustrado às vezes, e mamãe gentilmente me encorajava a ajudá-lo com o dever de casa de Ciências e Inglês, para ajudar a melhorar sua autoconfiança nas provas iminentes. Eu não conseguia compreender como ele poderia ter um problema de autoconfiança; ele era popular, aceitável nos esportes e também não era um mau aluno. Eu teria trocado meus 9 pelos 7 com o carisma dele em um piscar de olhos. Eu não digo isso para apontar as falhas dele mas para tentar oferecer um pouco de perspectiva. Tudo que ele faz parece não precisar de esforço, até mesmo agora; ao vê-lo pular em cima do palco na frente de milhares de pessoas, ele parece livre de problemas e dúvidas de si mesmo. É fácil ter inveja –ele é uma daquelas pessoas que são simplesmente boas nas coisas, todos conhecemos uma delas– mas presumir que ele não dá valor, não se preocupa ou não tenta seria simplificá-lo de forma injusta. Seus talentos são uma mistura de habilidade natural e um amor intenso.
Mamãe nos ensinou a ser independentes. Enquanto adolescentes, ela nos criou no que era geralmente uma casinha feliz. Ela dizia que ficávamos abandonados, porque chegávamos em casa da escola antes de ela acabar o trabalho. Mesmo que às vezes ela se sentisse culpada, não era uma coisa ruim, e aprendemos a coexistir em dupla durante aquela janela do dia, fazendo macarrão e brigando pelo controle remoto. Quando ela tinha tido um dia ruim, como todos temos às vezes, tentávamos ajudar no que podíamos. As tentativas de Harry de animá-la eram ainda melhores pela sua sinceridade juvenil. Aos 12 anos já vimos comédias românticas suficientes para saber que um cara que tem consideração prepara um banho de banheira, então é isso que ele fazia por ela de vez em quando, colocando no banheiro as velas de vários tipos que ele encontrava pela casa.
Como um garoto “popular”, Harry se destacava mas também se encaixava. Ele sempre se interessou por roupas e gastava todo seu salário e dinheiro de aniversário para pegar o trem para Manchester e aumentar seu guarda-roupa. Ele distribuiu jornais e depois trabalhou na padaria do vilarejo por um tempo. Eu mal tinha começado a comer meu cereal na hora que ele chegava em casa desses empregos que eram absurdamente cedo –o incentivo dos tênis novos obviamente tendo mais peso que o tempo na cama. Quando a onda de adolescentes emo dominou o Holmes Chapel, nós dois fomos mordidos pelo bicho, com nossas franjas ruins e cintos de rebite. Para ficar com o visual certo, ele tentou roubar minha chapinha para atacar seus cachos –e falhou, tendo que alistar minha ajuda para domar seu cabelo. Depois, ele me deixou cortá-lo também: eu não fazia ideia do que estava fazendo e ele sempre odiava o resultado por 20 minutos antes de admitir que eu estava certa e que estava melhor. Aham. Os jeans skinny nunca foram embora… mas os sapatos xadrez sim.
Quando eu fui para a universidade e saíde casa pela primeira vez, nenhum de nós fazia ideia que um Harry de 16 anos estaria seguindo os passos depois de alguns meses. Ele estava falando de escolher faculdades e tinha planos de ser fisioterapeuta. Na maior parte do tempo nós nos entendemos, mas, naquela época, não estávamos muito próximos; ele tinha seus amigos e eu tinha os meus, nossos interesses eram muito diferentes, exceto pela música –ele sempre me perguntava o que eu andava ouvindo e eu lhe dava coisas emo e indie para conhecer. Foi surreal, anos depois, sentada em um cinema da Leicester Square vendo a estreia do filme do One Direction, ouvi-lo falar sobre a música que saía do meu quarto no sótão. Foi apenas depois de eu sair de casa que percebi que ele sentiria minha falta. Mamãe disse que ele dormiu no meu quarto por mais ou menos uma semana depois de eu ir embora. Não acho que tenha sido só porque eu tinha o quarto maior.
Quando descobrimos que ele tinha passado para a parte televisionada do The X-Factor, de repente pareceu real. Há uma lista de músicas que os competidores podem escolher e nos debruçamos sobre ela para escolher as que ele já soubesse, as que ele gostasse e as que ele não conseguisse se imaginar cantando. Quando ele tinha que treinar, de repente ficava tímido e não nos deixava ouvir. Ele estava sempre cantando antes e, de primeira, eu não entendi por que isso era tão diferente. Depois de muita persuasão, ele ficava no banheiro com a porta fechada cantando Isn’t She Lovely e Hey, Soul Sister enquanto a mamãe e eu ficávamos no topo da escada do lado de fora. Eu nunca tinha conhecido um Harry tímido, e nunca tinha apreciado de verdade que ele realmente sabia cantar –isso geralmente ficava escondido atrás de humor ou sarcasmo ou alguma voz boba; eu tinha ouvido ele cantar Handbags and Gladrags um milhão de vezes em um karaokê no quarto dele mas era sempre uma performance exagerada e caricata por ele fingir ser outra pessoa. Quando ele era pequeno, cantou em uma peça da escola como uma versão Elvis do Faraó de Joseph and the Amazing Technicolor Dreamcoat. Foi ridículo. Ele era engraçado. Assim que virasse sério e ele estivesse sendo ele mesmo, era como se tivessem levado embora seu escudo. E ele era ótimo.
À medida que as semanas passaram, nós continuamos esperando o passeio acabar. Não acabou. Finalmente ele foi convocado para Londres, para o Wembley, para o infame “acampamento” da competição do The X-Factor. Ele nunca tinha ido a Londres antes. Eu estava aproveitando o verão depois do meu primeiro ano de faculdade e, já que a mamãe estava trabalhando, eu disse que o levaria nessa jornada. Combinamos de ficar com um amigo do papai e decidimos ir alguns dias mais cedo para aproveitar ao máximo os pontos turísticos da capital. Eu o arrastei ao Museu de História Natural, tentando fazer com que ele ficasse mais interessado em preguiças que em sanduíches (e falhando); desisti na metade do caminho e nós andamos por aí olhando vitrines e nos assustando com o preço do chocolate no Harrods Food Hall.
O dia chegou logo. Pegamos o metrô para o Wembley e andamos até a arena, onde uma pequena multidão se reunía do lado de fora. Todos pareciam tão mais velhos que ele, e as pessoas estavam divididas em pequenos grupos, treinando postura e harmonias e analisando a concorrência de forma geral. Ele viu um rapaz com quem tinha conversado em outro teste e eu percebi que era hora de deixá-lo, com 16 anos e à sombra de um edifício que tínhamos visto apenas na TV. Eu fiquei por perto para que, quando chegasse a ligação e ele estivesse fora da competição, eu pudesse oferecer apoio, levá-lo para casa, para Cheshire, para a escola e de volta à vida normal. Nenhum de nós queria que ele falhasse, mas nós nunca sonhamos que as coisas fossem acontecer do jeito que aconteceram. Aquela ligação nunca veio. Ele só continuou vencendo e vencendo –talvez não o ouro no The X-Factor, mas não dá pra negar que ele é de ouro. Meu irmãozinho nunca voltou pra casa. Ele cresceu, e todas as nossas memórias se tornaram a história da sua origem.

A rainha do talk show, Chelsea Handler, faz perguntas a Harry sobre sua vida em LA, sua vida amorosa e o pós-vida
[original]

Chelsea Handler: Oi, querido! Saudades!
Harry Styles: Oi! Também estou com saudades! O que tem feito?
CH: Tive uma noite longa e que terminou tarde ontem. Tivemos um grande jantar na minha casa para o meu programa, então todo mundo ficou aqui até, tipo, 3 da manhã. E agora meu treinador vai chegar em cerca de uma hora. Você acredita que a gente tem o mesmo treinador?
HS: Sim, acredito. Nossos corpos são tão parecidos.
CH: Temos praticamente o mesmo corpo.
HS: Faz sentido.
CH: Você sabe que eu sou mais forte que você, né?
HS: Tenho certeza.
CH: Sou sim. Você tava fazendo um filme. Ouvi que você tava filmando o dia todo em águas super geladas.
HS: Yeah! Mas foi divertido.
CH: Como foi? Ficou nervoso?
HS: Yeah, fiquei nervoso. Mas está indo bem, eu acho.
CH: Quero ouvir como você decidiu fazer o filme.
HS: Eu atuei na escola. É algo que eu sempre quis explorar, mas estava ocupado com a banda, então nunca tinha tempo para fazer isso do jeito certo. Quando tiramos uma folga, pensava em ver se conseguia fazer. É um desafio, mas é bom estar fora da minha zona de conforto.
CH: Como foi o seu primeiro dia no set? Você devia estar com medo, né?
HS: Meu primeiro dia no set foi muito gelado, tinha areia nos meus olhos, foi intenso. O filme é bem ambicioso. Eu fiquei chocado com quão grandioso é todo o processo.
CH: Te faz se sentir meio pequeno.
HS: Bem real. Até mesmo chegar para pegar o seu almoço e ver centenas e centenas de pessoas sentadas te faz perceber o tamanho de tudo.
CH: Minha amiga me disse que o melhor diretor com quem ela já trabalhou é Christopher Nolan. Para essa ser a pessoa com quem você começa a atuar é incrível.
HS: Yeah, me sinto sortudo de estar envolvido nisso. Parece ser um projeto bem legal. Sou um grande fã dos filmes dele, fico muito impressionado com ele. Ele tem um cérebro incrível, a maneira com que ele trabalha. Ele claramente faz muita pesquisa e acho que é por isso que ele não roda muitos filmes. Isso definitivamente tira um pouco do nervoso — você sabe que se fizer algo de errado, ele vai te dizer.
CH: Sei que você é bem reservado, como você se adaptou com a sua falta de anonimato?
HS: Acho que tem diferentes formas de abordar isso. Algumas pessoas não deixam que isso os importune de maneira alguma, e eu admiro isso. As pessoas vão dizer que a falta de privacidade é um dos lados disso tudo e você tem que aceitar do jeito que é. Eu gosto de passar tempo com minha família e amigos. Não acho que sou estranho sobre isso, só gosto de ficar com meus amigos. Isso que é normal para mim.
CH: Você passa muito tempo em LA, é exatamente como você achou que seria?
HS: Acho que é um lugar ruim para visitar. Pessoas ficam lá uma semana e dizem que odiaram. Quando você pergunta o que fizeram, você completamente entende porque eles odiaram porque fizeram as coisas mais estranhas. É definitivamente um lugar em que você pode fazer umas merdas bizarras, mas eu tenho alguns amigos que se mudaram para lá para trabalhar então eu tenho um grupo bom de pessoas lá. O clima é constantemente excepcional. Crescer na Inglaterra significa que quando está ensolarado, sua mãe entra no seu quarto e diz: “Está ensolarado e você precisa sair da cama agora”. Em LA você acorda e todos os dias está assim. Você acaba tendo uma vida cheia fazendo coisas agradáveis. Você não se importa muito em ir trabalhar.
CH: Você acha que vai se casar e ter filhos?
HS: Isso saiu absolutamente do nada.
CH: Bem, é a nossa conversa. É como qualquer outra conversa que temos.
HS: Na verdade, tá bem comportado para o seu padrão. Estou meio decepcionado, honestamente.
CH: Bem, não ligue pra isso. Não ligo se você está decepcionado comigo.
HS: Oh. Bem, eu acho que sim. Provavelmente.
CH: Você pensa: “Quando encontrar a pessoa certa”? Ou você pensa: “Vou ter tantas experiências que forem possíveis e vou namorar tantas pessoas que forem possíveis”? Você pensa em ter uma família?
HS: Mal posso esperar por quando isso seja algo para mim, eu espero fazer isso da minha vida. Por enquanto, eu acho que você valoriza mais as experiências do que sair com pessoas que você realmente quer ficar e realmente se importa. Estou gostando de trabalhar agora e se você gosta de trabalhar, você deveria aproveitar ao máximo. Eu gosto de estar no estúdio e fazer o filme e não estou pensando em tirar férias. Me sinto afortunado no momento. Me sinto bem com tudo que aconteceu com a banda, não tenho reclamações ou arrependimentos.
CH: Acabou? Vocês vão fazer mais alguma coisa juntos?
HS: Não sei. Quando começamos sempre nos perguntavam: “Onde vocês acham que vão estar em cinco anos?”
CH: Deus, eu odeio essa pergunta!
HS: As pessoas sempre perguntam, né? É uma pergunta difícil de responder. Nunca diria que nunca mais vamos fazer alguma coisa de novo, mas é bom para nós explorarmos coisas diferentes. Talvez em alguma hora todo mundo vai querer fazer alguma coisa de novo, mas é melhor se acontecer naturalmente, tipo: “Hey, nós realmente queremos fazer isso de novo”. Se isso acontecer, seria incrível. Eu nunca descartaria isso. É a coisa mais importante e relevante que já aconteceu comigo, estar na banda. Mudou completamente a minha vida.
CH: Você acredita em Deus?
HS: Wow.
CH: Quer dizer, você parece ser espiritual para mim, um tipo hippie de espiritual. Não sabia se você era religioso.
HS: Fico feliz que você tenha dito isso, acho que qualquer um que diga “sou espiritual” soe meio idiota. Mas, yeah, definitivamente me considero mais espiritual do que religioso. Não sou super ligado a certas regras, mas acho que é ingênuo dizer que nada existe e que não existe nada acima de nós ou mais poderoso que nós. Eu acho que isso é um pensamento pequeno.
CH: Você é um daqueles que pensa que tudo acontece por um motivo?
HS: Eu definitivamente acredito em karma. Acho que “tudo acontece por um motivo” é uma frase difícil porque tem tanta merda acontecendo no mundo agora que isso é injusto. Então é difícil olhar para aquilo e pensar “bem, tudo acontece por um motivo”. Mas eu definitivamente penso que existe alguma coisa — que não somos apenas nós. Porque, sabe, é meio louco pensar que somos só nós. Acredito em alienígenas, mas você sabe o que eu digo. Você é religiosa?
CH: Não! Eu acredito em karma e em energia, mas eu acredito que as pessoas fazem as coisas acontecer porque existe muita mágica. Mas, por outro lado, existe tanta tristeza que é difícil de acreditar em qual é a lógica por trás de tudo isso. Eu acho que todo mundo que tem um cérebro pensa sobre isso… Então, voltando para quando você estava com o One Direction. O que é um show ótimo e o que é um show mais ou menos? Você já saiu do palco achando que tinha sido um show não muito bom?
HS: Se você se doa completamente, é difícil sair do palco e dizer: “isso foi uma merda”. Eu fico muito focado. Sempre quis que as pessoas aproveitassem bem. Eu adoro ir a shows e ver música ao vivo. Você sempre sente uma responsabilidade — você tem um palco e um lugar para dizer alguma coisa e a maneira com que você usa isso é importante.
CH: Você tem uma lembrança favorita de estar no palco?
HS: Tocar naqueles lugares grandes em que você vê um mar de gente, aquela vista… Você pára um segundo e deseja poder trazer todos seus amigos para estarem ali com você por um momento para ver aquilo. É diferente de tudo. Não existe uma droga que você tome que te dá o mesmo tipo de barato. É bem incrível e é uma coisa natural. Os sentimentos voltam para você — a vista, as pessoas. É legal ter momentos tão específicos na sua mente para poder resgatar.
CH: De vez em quando você sente falta desses momentos. Quando você está tão ocupado e você está na estrada fazendo milhões de shows, de vez em quando quando isso acontece você não estava prestando atenção. Eu sempre fico: “esse é um daqueles momentos, preste atenção, preste atenção!” É tão sutil e muitas pessoas não tem a oportunidade de viver algo assim. Algumas pessoas nunca vão querer.
HS: Yeah, não tem nenhum livro ou matéria que você tenha na escola que vai te ensinar a como lidar ou mesmo como processar isso. Coisas assim são surreais. Esses momentos definitivamente são os você se lembra, seja em um mês ou um ano depois.
CH: Eita, o treinador chegou! Ele acabou de estacionar.
HS: Bem, obrigada por ser educada.
CH: Oh, bem, só estou tentando fazer você ficar com uma boa imagem.
HS: Eu agradeço por isso, obrigado.

O ensaio fotográfico que Harry fez para a revista, realizado pelo fotógrafo Ryan MgGinley, inaugura nossa galeria. Confira abaixo:

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