Publicado por em Entrevista | 27 de fevereiro

Harry Styles sobre Fine Line, Stevie Nicks e sua definição de sucesso

Em uma década, Harry Styles passou de galã adolescente para uma estrela pop global por direito próprio. Como ele se distanciou de sua adolescência como membro do One Direction, ele se tornou sua própria pessoa, estrelando o sucesso de bilheteria Dunkirk de 2017, sendo o anfitrião do Saturday Night Live e criando músicas que puxam de uma variedade de influências.

Styles lançou seu segundo álbum solo Fine Line no final do ano passado e, além de mostrar algumas dessas influências e seus talentos como compositor, também foi um grande sucesso comercial, com a maior semana de vendas nos EUA de um artista masculino britânico desde Eric Clapton. ‘Unplugged’ em 1992.

Mas o cantor diz que passou muito tempo repensando sua ideia de sucesso depois de fazer uma turnê com seu álbum auto-intitulado. “Acho que se você está fazendo o que quer, então, no final das contas, ninguém pode dizer que você não teve sucesso, porque está fazendo o que te faz feliz”, diz ele.

Mary Louise Kelly, da NPR, conversou com Harry Styles sobre seu amor por Fleetwood Mac e sobre encontrar liberdade na música dos anos 70, o que ele diria para o seu eu de 16 anos e sobre pintar unhas. Ouça o áudio [com parte da entrevista] no site e leia a transcrição traduzida da conversa completa.

Mary Louise Kelly: Seu álbum mais recente parece conectado nos anos 70, que é uma década em que você realmente não viveu. O que há nessa época que o atrai?

Harry Styles: Há uma liberdade na música que é tão inspiradora. Se você voltar e ouvir muitas dessas músicas e escutar canções de Tapestry [de Carole King] a Harry Nilsson, elas soam tão modernas. Penso que é uma loucura como algo que foi feito há muito tempo, você possa ouvir agora e dizer: “Quero que minha bateria soe como essa bateria e quero que minhas cordas soem como essas cordas”. Acho isso realmente incrível. E acho que é apenas a liberdade, as pessoas fazendo o que elas queriam fazer. Obviamente, a indústria da música mudou muito desde então — havia muito mais gente andando junto e tocando músicas, e sinto que a música é muito mais competitiva agora.

E é talvez um pouco mais produzido agora? Menos orgânico?

O pior que pode acontecer é eu gravar um álbum que acredito que todos queiram ouvir, e então ele não se sair bem. E você fica lá dizendo: “Bem, gostaria de ter feito o disco que eu queria fazer”. 

Acho que temos apenas uma tecnologia diferente. Quando viemos fazer meu primeiro álbum solo, eu tive essa vontade em que queria fazer tudo em fita cassete. E então meio que percebi que os Beatles não usavam fita porque era muito legal usar, e sim porque era a melhor tecnologia que eles tinham [na época] e soava melhor. Agora temos apenas maneiras diferentes de gravar e você pode fazer as coisas parecerem realmente boas — então, meio que abandonamos a ideia da fita. No geral, o que me atrai a essa época com a música é apenas a liberdade.

Fazer o Fine Line soar como a música dos anos 70 foi uma escolha consciente?

Não estou mais ouvindo tanto as coisas, estou tipo “Apenas quero que minhas produções soem assim”. Você cresce ouvindo o que seus pais ouvem. Para mim foram os [Rolling] Stones, Beatles, Fleetwood [Mac],muito Queen, Elvis Presley, Shania Twain, Savage Garden, Norah Jones. Isso foi meio que a base da minha primeira experiência com música, e eu sinto que você carrega muitas referências [em sua própria música] do que você cresceu ouvindo.

Falando em Fleetwood Mac, vi que você conheceu e trabalhou com Stevie Nicks. Como é conhecer alguém que foi a trilha sonora da sua infância e subir ao palco com eles?

Chega a ser uma experiência extracorpórea. “Dreams” foi a primeira música que eu conhecia todas as palavras; costumava cantar no carro com minha mãe. Toda vez que estou com ela, você quer estar, obviamente, presente, certo? Quando estou com ela tento aproveitar o momento e imergir. Ela divide muitos conselhos incríveis, normalmente são coisas como “apenas faça as coisas do seu jeito”. Mas, ao mesmo tempo, enquanto você está na sala com ela, estou sentado pensando em ter 10 anos e estar cantando a música.

Importa se você é super famoso?

Acho que não, porque no final somos todos humanos. Não é como paralisar o estrelato, é mais como se eu tentasse apreciar o que meu eu de 10 anos pensaria disso. Penso que, no final das contas, você conhece [outras pessoas famosas] e fica meio admirado com elas, mas ao mesmo tempo você passa o tempo com elas nesse nível humano, onde você está apenas conversando e é realmente incrível.

Esses são os momentos que mais significam porque são reais. E quando tudo o mais sobre estar na música desaparece, é isso que acho que você acaba contando aos seus netos. Por exemplo, com Stevie, meus momentos favoritos sobre isso geralmente não são o show, é a prática. Quando tocamos juntos pela primeira vez, foi no Troubadour — famoso, onde Elton John fez seu primeiro show nos EUA — e foi um momento incrível, mas o meu favorito foi a passagem de som. É como quatro pessoas lá e apenas nós cantando no Troubadour vazio. Para mim, é um momento em que não irei esquecer. 

Falando de momentos em que você gostaria de poder dizer ao seu eu mais jovem “Amigo, você não tem ideia”, há 10 anos, quando você fez o teste para o reality show britânico X Factor, o juiz Simon Cowell perguntou: “O que você quer fazer com sua vida, quais são seus planos para o futuro?”. Você disse que voltaria à faculdade no outono para estudar “direito, sociologia, administração e outras coisas, mas ainda não tenho certeza”.

Muitos de nós queriam ser uma estrela do rock e acabamos sendo advogados. Você foi para o outro lado. É engraçado ouvir você mesmo no passado? O que você gostaria de dizer ao seu eu de 16 anos?

Acho que “não se preocupe”. Nos primeiros anos, passei muito tempo me preocupando com o que aconteceria e em entender algo errado, dizer algo errado e fazer algo errado. Estou tentando deixar de lado a preocupação, e é isso que eu mais amei neste álbum, ao invés do primeiro. Tive muito medo — consciente ou inconscientemente — de errar.

Quando ouço o primeiro álbum agora, embora ainda o ame muito, sinto um pouco como se estivesse jogando boliche mas bloqueando as canaletas da pista. Consigo escutar [nas canções] onde eu estava jogando pelo seguro [e não se arriscando].

Penso que com este, depois de fazer uma turnê com um álbum que não era necessariamente um disco de rádio e as pessoas vieram assistir ao show, percebi que a única coisa que as pessoas realmente querem é que você faça o que quer. Por fim, acho que se as pessoas acreditam em você, você pode fazer um disco ruim, você pode fazer uma música ruim, e as pessoas ainda comparecerão a um show se estiverem interessadas e quiserem vê-lo. Acho que a única vez que as pessoas dizem “Sabe de uma coisa? Eu já cansei disso” é quando deixa de ser autêntico. Você não pode realmente culpar as pessoas por isso. Se há um artista que amo e sinto que ele estava fingindo, não posso dizer que continuaria indo aos shows. Acho que foi uma grande coisa para mim, apenas tentar me preocupar menos. O pior que pode acontecer é eu gravar um álbum que acredito que todos queiram ouvir, e então ele não se sair bem. E você fica lá dizendo: “Bem, gostaria de ter feito o disco que eu queria fazer”. Eu acho que se você está fazendo o que quer, então no final das contas ninguém pode lhe dizer que você não teve sucesso, porque você está fazendo o que o faz feliz. Essa é a maior coisa que aprendi dessa vez.

E tem alguma parte de você que gostaria de voltar e estudar sociologia ou direito?

Acho que se eu voltasse para a escola, seria terapeuta. 

Curar as pessoas e ajudá-las a ficarem melhor?

Sim. 

Você se veste extraordinariamente bem. Você usa ternos, mas eles são estampados e florais e você tinha aquela blusa que chamou toda a atenção no Met Gala do ano passado. Percebi que você está usando esmalte e às vezes usa roupas que desfocam as linhas tradicionais. O que você espera que as pessoas tirem disso? É apenas “é isso que eu quero vestir, lide com isso” ou você está tentando passar algum tipo de mensagem?

Comecei a me sentir nu agora se não usar esmalte. Para mim, não é como se fizesse isso para passar uma mensagem. Parte de estar na última turnê, quando as pessoas vieram assistir ao show, eu percebi “Oh, essas pessoas só querem me ver sendo eu mesmo, e estou dizendo para elas serem elas mesmas”. Quando eu tiver filhos, pretendo dizer para eles serem eles mesmos e fazerem o que quiserem. Simplesmente não queria ser um hipócrita. Faço isso quando não estou trabalhando, então para mim não parece que é “Ah, estou passando uma mensagem com meu esmalte”. Eu coloco muito menos peso por trás disso, penso. E às vezes esqueço, porque vou a algum lugar e alguém fica tipo “Você está usando esmalte?”. Tenho sorte de trabalhar em uma indústria que permite que você seja criativo e se expresse, e eu incentivaria a qualquer pessoa.

Descreva o que você está usando agora para que as pessoas possam visualizar.

Agora estou usando uma calça marrom acinzentada, uma camisa creme com linhas finas vermelhas e azuis e um suéter de pelos azul claro com uma imagem de um pintinho saindo de um ovo.

Você pode nos contar sobre uma música favorita do álbum?

Minhas duas músicas favoritas deste álbum são provavelmente “Cherry” e “Fine Line”. “Cherry” é a quinta música do álbum. É uma das minhas favoritas, principalmente por conta de como surgiu. Quando eu comecei a fazer este álbum… senti que tinha que ser grande. O último disco não era realmente um disco de rádio: o single [“Sign of the Times”] era uma balada de piano de 6 minutos, então não era a fórmula típica. Então, senti um pouco de pressão por querer fazer algo que funcionasse. Estava tentando essas coisas uma noite no estúdio e fiquei preocupado porque simplesmente não estava gostando de nada do que estava fazendo. Senti como se estivesse tentando demais. E isso é quando faço a música que menos gosto, é quando estou tentando escrever uma música pop ou algo divertido.

Todo mundo saiu para o fim de semana e fui eu, Tyler Johnson, com quem trabalho, e Sammy Witte. Eram duas ou três da manhã e estávamos bebendo e conversando. Eu estava dizendo como tenho todos esses discos que adoraria fazer, amo todo esse tipo de música e em cinco anos quero fazer esse tipo de álbum, e em dez anos quero fazer esse tipo de álbum, e então vou fazer a música que realmente quero fazer. E Tyler apenas diz: “Você só precisa fazer a música que deseja — agora. Essa é a única maneira de fazer isso, caso contrário você vai se arrepender.”

E “Cherry” foi o resultado disso?

Sim, então ficamos e Sammy começou a tocar riff de guitarra, e fizemos isso durante a noite e a gravamos.  Todo mundo voltou pela manhã e ouviu… Escutei quando estava pronto e fiquei tipo: “Esse é o tipo de música que eu quero fazer”.

Como você escreveu “Fine Line”?

“Fine Line” eu escrevi [durante] um recesso na turnê. Era janeiro de 2018 e eu estava na casa do meu amigo Tom, com quem trabalho, e começamos a dedilhar essa coisa, e começamos a colocar em camadas esses vocais, e isso se transformou em algo de 6 minutos. Tive [a canção] pronta por um longo tempo e continuei a ouvindo durante a turnê, eu a ouviria antes de ir para a cama. Sonoramente, amei a música e a letra. Quando escrevemos, meio que sabia que era a última canção de um álbum, e acabamos levando-a para Bath, na Inglaterra, onde eu estava gravando por um tempo. Queria que ela se transformasse em outra coisa no final, queria um grande final crescente. Enquanto estávamos em Bath, Sammy começou a tocar esse pequeno trecho no piano, e alterei um pouco e fiquei tipo “Isso tem que acontecer no final de “Fine Line”.  Agora, quando ouço, é uma daquelas coisas em que apenas me orgulho de ser meu, fico muito feliz. É uma daquelas músicas que sempre quis fazer.

Fonte: NPR Music

DEIXE SEU COMENTÁRIO