Publicado por em Solo | 26 de agosto

Harry Styles em entrevista com Rob Sheffield para a Rolling Stone.

No banco do passageiro, com o ex-herói de boyband, enquanto ele se abre sobre sexo, psicodélicos e, sobre se tornar uma estrela do rock no século XXI.

Harry Styles não está exatamente vestido para o almoço. Ele tem um chapéu branco que Diana Ross provavelmente ganhou de Elton em um jogo de pôquer na mansão de Cher por volta de 1970, além de óculos Gucci, um suéter de caxemira e calças jeans azul de boca de sino. Seu esmalte é rosa e verde menta. Ele também está carregando sua bolsa — nenhuma outra palavra para ela — uma bolsa de lona amarela com o logotipo ‘Chateau Marmont”. As velhinhas duronas que trabalham nesta lanchonete de Beverly Hills o conhecem bem. Gloria e Raisa o adoram, chamando-o de “meu amor” e trazendo para ele sua habitual salada de atum e café gelado. Ele vira a cabeça, para dizer o mínimo, mas ninguém chega perto porque as garçonetes pairam em volta do estande de forma protetora.

Ele era apenas um rapaz inglês de uma cidade pequena com seus 16 anos quando se tornou o ídolo pop de sua geração com a One Direction. Quando o grupo entrou em hiato, ele partiu sozinho com sua impetuosa estreia solo em 2017, cujo primeiro single foi a magnificamente balada de piano de seis minutos “Sign of the Times”. Até mesmo pessoas que perderam a era da One Direction ficaram chocadas ao saber a verdade: Esse menino famoso era uma estrela do rock no coração.

Um rápido destaque do ano de 2019 para Harry até o momento: Ele apresentou o Met Gala com Lady Gaga, Serena Williams, Alessandro Michele e Anna Wintour, usando um look de renda preta de levantar a sobrancelha, no tapete vermelho. Ele é o rosto oficial de uma fragrância designada sem gênero, Mémoire d’une Odeur, da Gucci. Quando James Corden teve uma partida de queimada com celebridades no The Late Late Show, Harry foi atingido por um duro saque de Michelle Obama, fazendo dele talvez o primeiro inglês a ser atingido nos testículos na TV pela primeira-dama.

Mais perto de seu coração, ele fez um sucesso absoluto na cerimônia Rock & Roll Hall of Fame deste ano com sua homenagem a sua amiga e ídola Stevie Nicks. “Ela está sempre lá para você”, disse Harry em seu discurso. “Ela sabe o que você precisa: conselhos, um pouco de sabedoria, uma blusa, um xale.” Ele acrescentou: “Ela é responsável por mais rímeis escorridos — incluindo o meu próprio — do que todos os encontros ruins na história.” (Bastidores, Nicks acidentalmente se referiu a ex-banda de Harry como “NSync”. Ei, uma deusa pode se safar com esse tipo de coisa.)

Harry é o garoto do mundo há quase uma década. A coisa mais estranha sobre ele? Ele adora ser esse cara. Em um estilo de celebridade na via rápida que leva um pedágio implacável na personalidade, criatividade e sanidade do artista, Harry está quase assustadoramente à vontade. Ele conseguiu crescer em público com todo o seu entusiasmo de menino intacto, para não mencionar suas maneiras. Ele namorou uma série de mulheres de alto perfil — mas nunca é pego expressando qualquer um dos seus nomes em público, muito menos jogando indiretas para qualquer uma delas. Em vez de seguir a costumeira rota de super astro do pop — produtores em voga, duetos de celebridades, batidas cativantes de clubes — ele seguiu seu próprio caminho e ficou mais popular do que nunca. Ele está dando os últimos retoques em seu novo álbum, cheio das músicas mais difíceis e sentimentais que já escreveu. Como ele explica, “é tudo sobre transar e se sentir triste.”

O charme do Harry é uma força da natureza, e pode ser quase assustador testemunhar em ação. O exemplo mais surpreendente pode ser uma foto dos bastidores de fevereiro tirada com um de seus heróis, Van Morrison. Você nunca viu uma foto de Van como essa. Ele posa para fotos há 50 anos e se recusa a dar um sorriso em quase todos elas. Até que ele conheceu Harry — por algum motivo, Van irradia como uma estudante tonta. O que Harry fez com ele? “Eu estava fazendo cócegas em suas costas”, confessa Harry. “Alguém me mandou aquela foto — acho que o gerente da turnê dele tirou. Quando vi, me senti como John Travolta em Pulp Fiction abrindo o caso com a luz dourada brilhando. Eu fiquei tipo: ‘Porra, talvez eu não deva mostrar isso para ninguém’.”

Em entrevistas, Harry sempre tendeu a aproveitar esse charme, simplesmente porque ele pode. Na adolescência, ele estava em público a cada minuto e se tornava adepto de guardar cada fragmento de sua privacidade. Mas, hoje em dia, ele está descobrindo que ele tem coisas a dizer. Ele está mais confiante em pensar em voz alta e ver o que acontece. “Menos rígido” é como ele coloca. “Mais aberto. Eu estou descobrindo o quão melhor me sinto em estar aberto com os amigos. Sentir essa vulnerabilidade, ao invés de guardar tudo”.

Como muitas pessoas da sua idade, ele está fazendo perguntas sobre cultura, gênero, identidade, novas ideias sobre masculinidade e sexualidade. “Eu me sinto muito sortudo por ter um grupo de amigos que são caras que falariam sobre suas emoções e seriam realmente abertos”, diz ele. “O pai da minha amiga me disse: ‘Vocês são muito melhores nisso do que nós. Eu nunca tive amigos com quem eu pudesse conversar. É bom que vocês tenham um ao outro porque você fala sobre merdas reais. Nós simplesmente não fizemos’.”

Mudou como ele aborda suas músicas. “Para mim, isso não significa que vou sentar e dizer, ‘É isso que eu tenho para o jantar, e é onde como todos os dias, e é isso que faço antes de ir para a cama’”, ele diz. “Mas eu vou te dizer que posso ser muito patético quando estou com ciúmes. Sentindo-me mais feliz ou triste do que nunca, sentindo pena e raiva de mim mesmo, sendo mesquinho e lamentável – é realmente diferente compartilhar isso.”

Às vezes, Harry soa como um garoto comum de 25 anos descobrindo sua merda, o que, claro, ele é. (Harry e eu nos conhecemos no ano passado, quando ele entrou em contato depois de ler um dos meus livros, embora eu já estivesse escrevendo sobre a música dele há anos.) É estranho ouvi-lo falar sobre suas ansiedades e dúvidas, já que ele é sempre visto como uma das pessoas mais confiantes do planeta. “Enquanto estava na banda”, ele diz, “Eu estava constantemente com medo de que eu pudesse cantar uma nota errada. Senti muito peso em termos de não fazer as coisas erradas. Lembro-me de quando assinei o contrato de gravação e perguntei ao meu gerente: ‘O que acontece se eu for preso? Isso significa que o contrato é nulo e sem efeito?’ Agora, sinto que os fãs me deram um ambiente para ser eu mesmo e crescer e criar esse espaço seguro para aprender e cometer erros.”

Nós saímos pelos fundos e passamos uma tarde de sábado em L.A. em seu Jaguar E-type prateado de 1972. O rádio não funciona, então nós apenas cantamos “Old Town Road”. Ele se maravilha, “‘Bull riding and boobies [montar touros e peitos]’ – Essa é, possivelmente, a melhor letra de uma música de todos os tempos.” Harry costumava ser o menino misterioso do pop, tão diplomático e de lábios apertados. Mas, à medida que ele se abre ao longo do tempo, contando sua história, ele chega ao ponto em que está apresentando possíveis manchetes para esse perfil. Seu melhor: “Sopa, sexo e saudações ao sol”.

Como ele chegou a esse novo lugar? Como se vê, acontece que a jornada envolve alguns corações partidos. Alguma orientação de David Bowie. Alguma Meditação Transcendental. E mais do que um punhado de cogumelos mágicos. Mas, na maioria das vezes, trata-se de um garoto curioso que não consegue decidir se é a estrela pop mais ardentemente adorada do mundo, ou um artista esquisito. Então ele decide ser os dois.

 

Duas coisas sobre as estrelas de rock inglesas nunca mudam: elas amam o sul da Califórnia e, elas amam carros. Alguns dias depois de Harry proclamar o gênio de “Old Town Road,” estamos em um passeio diferente — um Tesla — cruzando a rodovia da Costa Pacífica enquanto Harry canta junto com o rádio. “Californiaaaaaaaa!” Ele grita ao volante enquanto passamos pela Zuma Beach. “É uma merda!” Há um número surpreendente de casais na praia que parecem estar brigando. Especulamos quais deles estão terminando e quais estão somente tendo a conversa. “Ah, sim, a conversa,” Harry diz sonhando. “A velha conversa.”

Harry está sentindo a brisa. Rocks de iate dos anos 70 estão tocando hoje, tocando Gerry Rafferty, Pablo Cruise, Hall e Oates. Quando eu menciono que Nina Simone fez uma versão de “Rich Girl,” ele precisa ouvir na hora. Ele rebate me enlouquecendo com a versão de Donny Hathaway de “Jealous Guy” do John Lennon.

Harry elogia uma viagem por excelência do SoCal que ele acabou de experimentar: uma “sauna fria,” um processo que envolve ficar preso em uma câmara de gelo. Seus cílios congelaram. Paramos para tomar um smoothie (“É basicamente sorvete”) e seu sabor favorito é pimenta – intensivo forte. Desce como uma dose de bateria ácida. “Isso acrescentará anos na sua vida,” ele me garante.

Estamos no caminho para os estúdios Shangri-La, fundada pela Band nos anos 70, agora propriedade de Rick Rubin. É onde Harry fez algumas de seu novo album e, ao andar, ele sorri ao lembrar. “Ah, sim,” ele diz. “Usei muitos cogumelos aqui.”

Psicodélicos passaram a ter um papel principal em seu processo criativo. “Usávamos cogumelos, deitávamos na grama, e escutávamos o Ram de Paul McCartney no nascer do sol,” ele diz. “Aumentávamos os alto-falantes no jardim.” Os chocolates comestíveis ficavam na geladeira do estúdio, perto do liquidificador. “Você ouviria o liquidificador funcionando, e pensar, ‘Então todos vamos tomar margaritas geladas às 10 da manhã hoje’.” Ele aponta para o canto: “Aqui foi onde eu estava parado enquanto estávamos usando cogumelos e eu mordi a ponta da língua. Então estava tentando cantar com todo o sangue jorrando da minha boca. Muitas memórias boas, esse lugar.”

Não é mero deboche de estrela do rock. Você tem a sensação de que esse é o motivo de gostar tanto de estúdios. Depois de tantos anos fazendo álbuns da One Direction enquanto estava em turnê, sempre na correria, ele finalmente pode ter seu tempo e abraçar a insanidade disso tudo. “Ficamos seis semanas aqui em Malibu, sem ir para a cidade,” ele diz. “As pessoas traziam seus cachorros e filhos. E a gente fazia uma pausa para brincar de torneios de cornhole. Valores de família!” Mas também é o lugar em que ele orgulhosamente sangrou pela sua arte. “Cogumelos e Sangue. Agora temos um título para o álbum.”

Alguns dos engenheiros vieram para acompanhar a fofoca. Harry faz gestos pela janela para as ondas do Pacífico. Onde a ocasional folia nua pode ser acontecida, e um par de calças ocasionalmente sumiu. “Teve uma noite em que estávamos fazendo um pouco de festa e acabamos indo para a praia e eu perdi todas as minhas coisas, basicamente,” ele diz. “Eu perdi toda a minha roupa. Perdi minha carteira. Talvez um mês depois, alguém achou minha carteira e a enviou de volta, anonimamente. Eu acho que ela simplesmente surgiu da área. Mas o que é triste é que eu perdi minhas flares mostarda de veludo.” Um momento de silêncio é feito pelas flares de veludo.

A gravação hoje é no estúdio Brockhampton, a autoproclamada “melhor boyband do mundo.” Harry diz ‘Oi’ para todos os rapazes da Brockhampton, o que leva um tempo pois parece ter algumas dezenas deles. “Estamos juntos o tempo todo,” um diz para Harry do lado de fora do quintal. “Nós nos vemos o dia todo, todo dia.” Ele pausa. “Você sabe como que é.”

Harry para com um largo sorriso. “Sim, eu sei como é.”

One Direction fez três dos maiores e melhores álbuns pop desse século em sequência — ‘Midnight Memories’, ‘Four’ e ‘Made in the A.M.’. Ainda que tenham feito as gravações em turnê, indo para o estúdio mais próximo quando tinham um dia livre. A 1D era uma mistura única de cinco diferentes personalidades musicais: Harry, Niall Horan, Louis Tomlinson, Zayn Malik e Liam Payne. Mas o ritmo atropelou o trajeto. Malik saiu na metade de uma turnê, imediatamente depois de um show em Hong Kong. A banda anunciou um hiato em Agosto de 2015.

É tradicional para cantores de boyband, quando vão para uma carreira solo e crescem, renunciar seu passado pop. Todos lembram de George Michael colocando fogo em sua jaqueta de fogo, ou Sting deixando o Police para fazer gravações de jazz. Essa não é a mentalidade de Harry Styles. “Eu sei que é a coisa que sempre acontece. Quando alguém sai de uma banda, eles vão, ‘Esse não era eu. Eu estava aprisionado.’ Mas aquele era eu. E não sinto que eu estava aprisionado. Era muito divertido. Se eu não tivesse curtido, eu não teria feito parte disso. Não é como se eu estivesse preso a um radiador.”

Toda vez que Harry menciona a One Direction — nunca pelo nome, sempre como “a banda” ou “a banda que eu fazia parte” — ele usa o passado. É minha obrigação desprazerosa perguntar: Ele vê a 1D como acabada? “Eu não sei,” ele diz. “Eu não acho que diria que nunca faria de novo, porque não sinto isso. Se tiver um momento em que todos realmente queiramos fazer isso, esse é o único momento para nós fazermos isso, pois não acho que deixa ser sobre nada além do fato de estarmos assim, ‘Ei, isso era muito legal. Deveríamos fazer isso novamente.’ Mas até esse momento, eu sinto que estou realmente curtindo fazer música e experimentar. Eu gosto bastante de criar música dessa forma para me ver fazendo uma mudança completa, para voltar para trás e fazer isso novamente. Porque eu também acho que se eu fosse voltar a fazer as coisas da mesma forma, não seria o mesmo, de qualquer forma.”

Quando a banda acabou, ele levou essas amizades com ele? “Sim, eu acho,” ele diz. “Definitivamente. Porque acima de tudo, nós somos as pessoas que passamos por isso. Sempre vamos ter isso, mesmo que não sejamos os mais próximos. E o fato é, só porque você está na banda com alguém não significa que tenham que ser melhores amigos. Não é assim que funciona. Só porque Fleetwood Mac briga, não significa que eles não sejam demais. Eu acho que até mesmo em brigas, sempre há um respeito mútuo um pelo outro — nós fizemos essa coisa muito legal juntos, e sempre vamos ter isso. É muito importante para mim ficar assim, ‘Oh, isso foi feito.’ Mas se isso acontecer, acontecerá pelos motivos certos.”

Se a intensidade dos fãs do Harry parece misteriosa pra você, tem um vídeo ao vivo que você talvez queira investigar, do verão de 2018. Só pesquise a frase “Tina, ela é gay.” Em San Jose, em uma das noites finais de sua turnê, Harry vê uma fã com um cartaz caseiro escrito: “Estou Me Assumindo Para Os Meus Pais Por Sua Causa!” Ele pergunta para a fã seu nome (ela diz que é Grace) e o nome de sua mãe (Tina). Ele pede para que a plateia fique em silêncio pois ele tem um anúncio importante para fazer: “Tina! Ela é gaaaaaaay!” Em seguida ele faz a multidão toda falar isso. Milhares de estranhos começam a gritar “Tina, ela é gay,” e cada um deles claramente quer dizer isso — é um momento intenso, definitivamente não é um som que esquecerá depois de ouvir. Depois Harry canta “What Makes You Beautiful.” (Claro, o jeito que as coisas funcionam agora, o vídeo viralizou em minutos. Assim como uma foto de Grace fazendo um amável sinal de positivo com sua filha adolescente agora fora do armário. Grace e Tina foram ao próximo show de Harry juntas.)

Harry gosta de cultivar uma aura de ambiguidade sexual, tão evidente quanto o esmalte rosa em suas unhas. Ele namorou mulheres durante sua vida como figura pública, ainda que recusou consistentemente em colocar qualquer rótulo em sua sexualidade. Em sua primeira turnê solo, ele frequentemente levantou as bandeiras LGBTQ, Bi, Trans e também do movimento Black Lives Matter. Em Philly, ele balançou uma bandeira do arco-íris que pegou de uma fã escrita também: “Make America Gay Again.” Uma das músicas favoritas ao vivo dos fãs: “Medicine,” uma faixa de guitarra que soa um pouco como Grateful Dead de Europe ‘72, mas com um toque pansexual: “As garotas e garotos estão aqui/ Eu apronto com eles/ E estou bem com isso.”

Ele sempre teve um talento para prosperar assim, desde os dias da 1D. Um vídeo icônico de novembro de 2014: Harry e Liam estão em um programa de bate-papo no Reino Unido. O apresentador pergunta a eles a pergunta mais velha de todas feitas às boyband: o que eles procuram em um encontro? “Mulher”, Liam graceja. “Esse é um bom traço.” Harry encolhe os ombros. “Não é tão importante.” Liam é pego de surpresa. O anfitrião está em choque. Em turnê nos EUA naquele ano, ele vestiu uma camiseta de futebol americano de Michael Sam, em apoio ao primeiro jogador abertamente gay recrutado por um time da NFL. Ele explodiu artistas queer desconhecidos como King Princess e Muna.

O que essas bandeiras no palco significam para ele? “Eu quero fazer as pessoas se sentirem confortáveis sendo o que elas querem ser,” diz ele. “Talvez em um show você possa ter um momento para saber que você não está sozinho. Eu estou ciente que, como um homem branco, eu não passo pelas mesmas coisas que muitas das pessoas que vão aos shows. Não posso dizer que sei como é passar por isso, porque não sei. Não estou tentando dizer, ‘Eu entendo como é.’ Estou tentando fazer as pessoas se sentirem incluídas e vistas.”

Na turnê, ele tinha uma figurinha escrita “Acabe Com a Violência Armada” em seu violão; ele adicionou uma figurinha de Black Lives Matter, assim como a bandeira. “Não é sobre eu tentar dominar a causa, pois não sou a pessoa apropriada para fazer isso,” ele diz. “É somente sobre não ignorar ela, eu acho. Eu estava um pouco nervoso em fazer isso pois a última coisa que queria era que isso fizesse parecer que estava dizendo, ‘Olhe para mim! Sou o cara legal!’ Eu não queria que ninguém que estivesse realmente envolvido no movimento pensasse, ‘Que porra você sabe?’ Mas então quando eu o fiz, percebi que as pessoas entenderam. Todos na sala estavam na mesma página e todos sabem o que apoio. Eu não estou dizendo que entendo como é. Só estou tentando dizer, ‘eu vejo você.’”

Em um de seus primeiros shows solo, em Estocolmo, ele anunciou, “Se você for negro, se for branco, se for gay, se for hétero, se for transgênero — seja lá o que for, seja lá quem queira ser, eu te apoio. Eu amo cada um de vocês”. “É uma sala cheia de pessoas que se aceitam… Se você é alguém que se sente deslocado, você não está sempre em uma grande multidão como essa,” ele diz. “Não é sobre, ‘Oh, eu sei como é,’ porque eu não sei. Por exemplo, eu saio para andar de noite antes de dormir sempre. Eu estava falando sobre isso com uma amiga e ela disse, ‘Você se sente seguro fazendo isso?’ E eu me sinto. Mas quando eu ando, eu estou ciente de que me sinto OK para andar a noite, e alguns dos meus amigos não. Não estou dizendo que sei como é passar por isso. Apenas estou ciente.”

“Um homem não pode viver de café puro,” diz Harry. “Mas ele fará uma tentativa muito boa.” Ele bebe seu americano gelado — não o seu primeiro de hoje, ou o último. Ele está de volta ao volante, em uma missão para mais um estúdio — mas desta vez para o trabalho real. Hoje são ‘overdubs’ de strings. Harry está vestido de Gucci da cabeça aos pés, exceto por uma peça de roupa: uma camiseta de rock surrada dos anos 70 que ele orgulhosamente buscou em uma loja vintage. Diz “Comandante Quaalude”.

No caminho, ele coloca o pianista de jazz Bill Evans — “Peace Piece”, de 1959, que é o toque de acordar em seu telefone. Ele acabou de entrar no jazz durante uma longa estada no Japão. Ele gosta de encontrar lugares para se esconder e ser anônimo: Em seu primeiro álbum, ele se mudou para a Jamaica. Durante o ano passado, ele passou meses perambulando pelo Japão.

Em fevereiro, ele completou 25 anos sentado sozinho em um café em Tóquio, lendo The Chronicle Bird Wind-Up, de Haruki Murakami. “Eu amo Murakami,” diz ele. “Ele é um dos meus favoritos. A leitura não costumava ser minha coisa. Eu tive um tempo de atenção tão curto. Mas eu estava namorando alguém que me deu alguns livros; Eu senti que tinha que lê-los, porque ela pensaria que eu era um idiota se não o fizesse.”

Uma amiga deu a ele ‘Norwegian Wood’, de Murakami. “Foi o primeiro livro, talvez de sempre, onde tudo o que eu queria fazer durante todo o dia era ler isso,” diz ele. “Tive um aniversário muito Murakami porque acabei ficando em Tóquio sozinho. Comi peixe grelhado e sopa de missô no café da manhã, depois fui a este café. Sentei, tomei chá e li por cinco horas.”

No estúdio, ele está supervisionando o quarteto de cordas. Ele manda os engenheiros interpretarem o “Cosmic Dancer” de T. Rex para eles, para ilustrar a vibe que ele está buscando. Você pode ver que ele gosta de estar deste lado do copo, sentado no quadro de Neve, dando suas instruções aos músicos. Depois de algumas explicações, ele pressiona o botão do interfone para dizer: “Sim, estão bem T. Rex. As melhores cordas que eu já ouvi.” Ele vibra novamente para acrescentar: “E vocês são todos pessoas maravilhosas.”

Ele selecionou seu próprio enclave estranho de almas gêmeas para colaborar, como os produtores Jeff Bhasker e Tyler Johnson. Seu guitarrista Mitch Rowland estava trabalhando em uma pizzaria de Los Angeles quando Harry o conheceu. Eles começaram a escrever músicas para a estreia; Rowland não largou o emprego até duas semanas após as sessões. Um de seus colaboradores mais próximos também é um de seus melhores amigos: Tom Hull, também conhecido como Kid Harpoon, um membro de longa data de Florence and the Machine. Hull é um britânico efusivo com uma personalidade de coração na manga. Harry o chama de “Meu rock emocional”. Hull o chama de “Gary”.

Hull foi quem o convenceu a fazer um curso de Meditação Transcendental no instituto David Lynch – começando cada dia com 20 minutos de silêncio, o que nem sempre é natural para nenhum dos dois. “Ele tem essa atemporalidade sábia além de seus anos”, diz Hull. “É por isso que ele fez toda uma exploração emocional com essas músicas.” Ele é 12 anos mais velho, com uma esposa e filhos na Escócia, e fala sobre Harry como um irmão mais velho irreverente, mas apaixonado.

No ano passado, Harry estava nas colunas de fofocas namorando a modelo francesa Camille Rowe; Eles se separaram no último verão depois de um ano juntos. “Ele passou por esse rompimento que teve um grande impacto nele”, diz Hull. “Eu apareci no ’Primeiro Dia’ no estúdio, e eu tinha esses chinelos realmente legais. Sua ex-namorada, com quem ele estava realmente chateado, me deu de presente – ela comprou chinelos para toda a minha família. Ainda somos amigos próximos dela. Eu pensei: “Eu gosto desses chinelos. Posso usá-los – isso é estranho?

“Então, eu apareci em Shangri-La no primeiro dia e, literalmente, na primeira meia hora, ele olha para mim e diz: ‘Onde você conseguiu esses chinelos? Eles são legais. “Eu tive que dizer: “Oh, hum, sua ex-namorada me deu. “Ele disse:” O queee? Como você pode calçar isso? ”Ele passou por uma jornada emocional inteira sobre ela, todo esse relacionamento. Mas eu continuei dizendo: “A melhor maneira de lidar com isso é colocando [seus sentimentos] nessas músicas que você está escrevendo.”

Fiel ao seu código de discrição elegante, Harry não diz o nome dela a qualquer momento. Mas ele admite que as músicas estão vindo de um coração partido. “Não é como se eu já tivesse me sentado e feito uma entrevista dizendo: ‘Então, eu estava em um relacionamento e foi isso que aconteceu'”, ele diz. “Porque, para mim, a música é onde eu deixo isso passar. É o único lugar, estranhamente, onde parece certo deixar tudo isso passar.

As novas músicas são certamente carregadas de dor. “As estrelas não se alinharam para que fossem eternas”, diz Hull. “Mas eu recitei a ele a famosa citação de Iggy Pop, onde ele diz: ‘Eu só saio com mulheres que vão me foder, porque é aí que estão as músicas.’ Eu disse: “Você tem 24, 25 anos, você está na categoria “solteiro cobiçado”. Apenas namora mulheres incríveis, ou homens, ou o que for, que vão te foder, te explorar e ter uma aventura, e deixar que isso te afete e [que você] escreva músicas sobre isso.”

Sua banda está cheia de indie rockers que foram levados pelo furacão Harry. Antes de se tornar sua icônica deusa da bateria, Sarah Jones tocou no New Young Pony Club, uma banda londrina lembrada por algumas dezenas de pessoas. Rowland e Jones mal sabiam nada sobre a One Direction antes de conhecer Harry – a primeira vez que ouviram “Story of My Life” foi quando ele pediu para eles tocarem. A conversa deles é cheia de referências a Big Star ou Guided by Voices ou o solo de guitarra de Nils Lofgren em “Speakin ‘Out” de Neil Young. Esta é uma banda cheia de desavergonhados geeks do rock não contaminados pelo profissionalismo da indústria.

No estúdio, enquanto fazia o álbum, Harry continuou assistindo a um clipe vintage de Bowie em seu telefone – uma entrevista na TV do final dos anos 90 que eu nunca tinha visto. Enquanto ele toca para mim, ele recita – ele tem o rap memorizado. “Nunca atue para as pessoas”, aconselha Bowie. “Nunca trabalhe para outras pessoas naquilo que você faz.” Para Harry, esse foi um discurso de encorajamento inspirador – um lembrete para não se manter em sua zona de conforto. Como Bowie diz: “Se você se sente seguro na área em que está trabalhando, não está trabalhando na área certa. Sempre vá um pouco mais fundo na água do que você sente que é capaz de ir. Se afaste um pouco da sua profundidade. E quando você não sentir que seus pés estão tocando o fundo, você está no lugar certo para fazer algo empolgante.”

Ele ficou tão obcecado com Joni Mitchell e seu clássico de 1971, Blue, que partiu em uma aventura. “Eu estava em um grande “momento Joni””, diz ele. “Eu continuei ouvindo o dulcimer durante todo o Blue. Então eu rastreei a senhora que construiu os dulcimers de Joni nos anos sessenta”. Ele a encontrou morando em Culver City. “Ela disse: ‘Venha me ver'”, conta Hull. “Nós aparecemos na casa dela e ele disse: ‘Como se toca um dulcimer?’ Ela nos deu uma aula. Então ela pegou um bongo e todos nós estávamos tocando com esses grandes sorrisos de gato de Cheshire. ”Ela construiu o dulcimer que Harry toca no novo álbum.”

Ele sempre foi o tipo de ir ao limite com seus entusiasmos de fanboy, desde que ele era criança e ficou maravilhado por Pulp Fiction. “Eu assisti quando era provavelmente muito jovem,” ele admite. “Mas quando eu tinha 13 anos, economizei dinheiro de quando era entregador de jornais para comprar uma carteira do ‘Bad Motherfucker’. Apenas um garoto branco idiota no interior da Inglaterra com aquela carteira.” Enquanto estava no Japão, ele ficou obcecado com Paul McCartney e Wings, especialmente London Town e Back to the Egg. “Em Tóquio eu costumava ir a um bar de vinil, mas o barman não tinha discos da Wings. Então eu o levei Back to the Egg. ‘Arrow Through Me’ era a música que eu tinha que ouvir todos os dias quando estava no Japão.”

Ele credita a meditação para ajudar a soltá-lo. “Eu estava tão cético quando entrei,” diz ele. “Mas acho que a meditação ajudou a me preocupar menos com o futuro e com o passado. Eu sinto como se me preocupasse muito com coisas que costumavam passar por mim, porque eu estava sempre correndo por aí. É parte de ser mais aberto e conversar com amigos. Nem sempre é o mais fácil entrar em uma sala e dizer: ‘Eu cometi um erro e isso me fez sentir assim, e então eu chorei horrores’. Mas naquele momento em que você realmente se deixa ficar naquela zona vulnerável, você alcança esse sentimento de clareza. É quando você se sente como ‘Oh porra, eu estou vivendo, cara’”.

Depois de algumas horas de gravação do quarteto de cordas, uma garrafa de tequila Casamigos é aberta. O Comandante Quaalude serve as bebidas, e decide que o que a música precisa agora é um bando de não-cantores cantando o refrão. “Vocais Muppet” é como ele descreve. Ele arrasta todos à vista para se aglomerarem ao redor dos microfones. Entre os takes, ele vai até o piano para tocar “Gotta Get Up”, de Harry Nilsson. Um dos membros do coral, a diretora de criação Molly Hawkins, é a amiga que lhe deu o romance de Murakami. “Eu acho que todo homem deveria ler Norwegian Wood,” diz ela. “Harry é o único homem que eu dei [o livro] e que realmente leu.”

Tem sido a noite de um dia difícil no estúdio, mas depois de horas, todo mundo vai para um boteco do outro lado da cidade para ver Rowland fazer um show. Ele está sentado com uma banda de bar local, tocando baixo. Harry dirige por aí procurando o lugar, observando o centro de Los Angeles (“Apenas uma cidade tão narcisista quanto LA teria uma rua chamada Los Angeles Street,” ele diz). Ele entra e se inclina contra o bar na parte de trás da sala. É uma multidão mais velha, e ninguém aqui tem ideia de quem ele é. Ele está totalmente confortável. Depois do show, enquanto a banda brinda com PBRs, um velho de boné de beisebol passeia e dá a Rowland um orgulhoso abraço de urso. É o patrão dele na pizzaria.

Na madrugada, Harry percorre a deserta Sunset Boulevard, sua hora favorita da noite para explorar as ruas da cidade, discutindo sobre qual é o melhor disco de Steely Dan. Ele insiste que “Can’t Buy a Thrill” é melhor do que “Countdown to Ecstasy” (erradamente), e encerra o caso ao aumentar o volume e cantar “Midnight Cruiser” com um prazer verdadeiramente chocante. Hoje à noite, Hollywood está cheia de luzes brilhantes, clubes chamativos, tapetes vermelhos, mas o pop star mais bonito da cidade está atrás do volante, cantando junto com cada nota do solo de saxofone de “Dirty Work”.

Alguns dias depois, do outro lado do mundo: o bloco de Harry em Londres é luxuoso, e ainda é um covil de um jovem solteiro. Por aqui: uma capa de álbum emoldurada na parede do Sex Pistols. Lá, uma cópia em vinil de The Other Side Of The Mirror, de Stevie Nicks, descansando casualmente no chão. Ele está tomando uma xícara de chá com sua mãe, Anne, a imagem cuspida de seu filho, toda graça e equilíbrio. “Estamos indo para o pub,” ele diz a ela. “Nós vamos falar de trabalho”. Ela sorri docemente. “Falar alguma merda, provavelmente,” diz Anne.

Nós partimos para seu local, atravessando a chuva. Ele está usando um moletom Spice World e saboreando a sede da cidade do dia. “Ah, Londres!”, Ele diz grandiosamente. “Eu senti falta deste lugar.” Ele quer sentar em uma mesa do lado de fora, mesmo que esteja chovendo, e nós conversamos a tarde com um bule de chá de hortelã e um enorme prato de peixe e batatas fritas. Quando peço torrada, a garçonete traz um pedaço de pão do tamanho de um carrinho de mão. “Bem-vindo à Inglaterra,” diz Harry.

Ele sempre teve um fervoroso fandom feminino e, admiravelmente, nunca sentiu a necessidade de fingir que não gosta das coisas assim. “Elas são as mais honestas — especialmente se você está falando de garotas adolescentes, mas também mais velhas,” diz ele. “Elas têm aquele detector de merda. Você quer pessoas honestas como seu público. Nós somos tão ultrapassados com aquela narrativa estúpida e desatualizada de ‘Oh, essas pessoas são garotas, então elas não sabem do que estão falando.’ Elas são as únicas que sabem do que estão falando. Elas são as pessoas que ouvem obsessivamente. Elas são as donas dessa porra. Elas comandam isso.”

Ele não tem a tensão que algumas pessoas têm sobre política sexual ou sobre a identificação como feminista. “Eu acho que, no fim das contas, o feminismo é pensar que homens e mulheres devem ser iguais, certo? As pessoas pensam que se você diz ‘sou feminista’ isso significa que você acha que os homens devem queimar no inferno e as mulheres devem pisotear os seus pescoços. Não, você acha que as mulheres devem ser iguais. Isso não parece uma coisa maluca para mim. Eu cresci com minha mãe e minha irmã — quando você cresce em torno de mulheres, sua influência feminina é realmente maior. É claro que homens e mulheres devem ser iguais. Eu não quero muito crédito por ser feminista. É bem simples. Eu acho que os ideais do feminismo são bastante diretos.”

Seu público tem uma reputação de ferocidade e a reputação é totalmente justificada. No show do último verão no Madison Square Garden, o andar estava balançando durante “Kiwi” — eu tenho visto shows lá desde os anos 80, mas eu nunca vi isso acontecer antes. (A única outra vez? Sua segunda noite.) Seus companheiros de banda admitem que temiam por suas vidas, mas Harry adorou. “Para mim, a melhor coisa da turnê foi que a sala virou o show,” diz ele. “Não sou só eu”. Ele toma seu chá. “Eu sou apenas um menino, em pé na frente de um quarto, pedindo-lhes para aguentar com ele.”

Naquela noite, Fleetwood Mac subiu ao palco em Londres — um show de regresso — a casa lotada no estádio de Wembley, o último show da turnê no Reino Unido. Desnecessário dizer que seu fã mais dedicado está na casa. Harry trouxe um encontro: sua mãe, seu primeiro show do Fleetwood Mac. Ele também está com sua irmã mais velha Gemma, os colegas de banda Rowland e Jones, um casal de amigos.

Ele está no modo anfitrião hiperativo, zumbindo em torno de sua aconchegante área VIP, certificando-se de que a taça de champanhe de todo mundo esteja sempre cheia. Assim que o show começa, Harry está de pé, cantando junto (“Tell me, tell me liiiiies!”) e contando piadas. Você pode notar que ele se sente livre — como se o seu radar dissesse que não há paparazzis o perseguindo. (Ele está certo. Essa é uma rara aparição pública em que ninguém o acha e sem fotos vazadas online.) É uma noite familiar. Seu amigo Mick Fleetwood enlouquece no solo de bateria. “Imagine ser descolado assim,” Gemma diz.

No meio do caminho para o show, o comportamento de Harry muda. Ele se torna descaracteristicamente solene e quieto, sentado sozinho e focando intensamente no palco. É a primeira vez na noite e que ele pegou um assento. Ele está numa zona diferente da qual estava há minutos. Mas ele já viu tantos shows do Fleetwood Mac, e sabe onde estão no palco. É hora de “Landslide.” Ele senta com o queixo nas mãos, seus olhos ficam em Stevie Nicks. Como sempre, ela apresenta sua música mais famosa com a história de que a escreveu quando tinha apenas 27 anos.

Mas Stevie tem algo a mais que quer compartilhar. Ela diz para a plateia do estádio, “Quero dedicar essa para meu pequeno muso, Harry Styles, que trouxe sua mãe hoje. Seu nome é Anne. E eu acho que você fez um trabalho ótimo criando Harry, Anne. Porque ele é um cavaleiro, doce e talentoso, e, cara, isso me atrai. Então todos vocês, essa é para vocês.”

Assim que Stevie começa a cantar “Landslide” — “I’ve been afraid of changing, because I built my life around youuuu” — Anne vai até onde Harry está sentando. Ela agacha atrás dele, e envolve suas mãos em volta dele forte. Nenhum deles diz nada. Eles escutam juntos e seguram um ao outro perto até o fim da música. Todos no Wembley estão cantando juntos, mas esses dois estão num mundo próprio.

 

Fonte: Rolling Stone

 

Tradução por Nana Bazzi, Paula Silva, Renata Ribeiro. 

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