Publicado por em Fashion | 17 de outubro

GQ: A história não contada por trás da incrível roupa de Harry Styles para o vídeo clipe de ‘Lights Up’, pelo designer que a criou

Por Renata Ribeiro e Davi Hughes

O suntuoso novo vídeo de Harry Styles para ‘Lights Up’ conquistou o mundo na semana passada. Exclusivamente para a GQ, o jovem designer, meio americano e meio britânico, Harris Reed compartilha o processo interno de como a roupa azul matadora de Styles, para a nova música solo, foi criada…

Se você conhece Harris Reed, você conhece de moda. Mas se não? Chegou a hora de se atualizar. Reed é um dos novos talentos mais promissores, e seus designs são aclamados pelos tons de romance e detalhes que parecem de outro mundo. Ele chamou atenção da GQ há alguns anos, quando ainda estava na Central Saint Martins — seus designs já denotavam traços nostálgicos e ao mesmo tempo modernos misturados com uma vibe cool e não binária digna de L.A.: sua estética traz luz, trevas, glamour e uma sensualidade que não-nociva. Seus designs não são apenas gender-fluid, são como vestir ouro líquido.

O segredo mais mal-velado da indústria é que Reed vem trabalhando com Harry Styles por alguns anos, desenhando modelos únicos para seus shows e oferecendo ao artista looks que parecem em harmonia com seu renovado senso de si mesmo e estilo. Semana passada, quando Styles lançou sua lasciva, despojada, calorosa e maravilhosa nova música, “Lights Up”, percebemos que foi um dos designs de Reed que o artista escolheu para sua nova fase. Enquanto o vídeo pegava fogo e se tornava um grande sucesso global, falamos com Reed sobre trabalhar com Styles, como a ideia para a roupa de “Lights Up” surgiu e quão longe ele acha que Styles está disposto a ir com sua nova estética gender-blurring…

GQ: Oi Harris, prazer em conversar contigo novamente. Como está?

Harris Reed: “Bom, estou gripado e acho isso horrível. Especialmente se levar em conta que deveria estar trabalhando numa nova coleção, então parece que isso está arruinando a minha vida. Mas tudo bem, vou superar.”

Parabéns por seu design para o vídeo de “Lights Up”, do Harry Styles. Você está animado?

“Obrigado, estou muito feliz. E adorei que o Harry botou uma foto com a roupa no seu perfil do Instagram. Estou realmente lisonjeado.”

Quando você começou a trabalhar com Harry Styles?

“Minha grande conexão com Harry começou com Harry Lambert, seu estilista, que foi a primeira pessoa que se interessou por minhas roupas. Tenho essa relação com ele há aproximadamente dois anos, e depois de um tempo ele me disse ‘acho que você está pronto, mesmo estando no início de sua carreira, para conhecer essa pessoa…’. Então fiz alguns designs – não sabia quem era até então, mas juntei algumas referências. Jimi Hendrix, David Bowie e Mick Jagger – sabe, só frontmen icônicos do rock clássico. E foi aí que ouvi que os designs eram para o Harry Styles.”

Quando você conheceu o Harry?

“Foi em novembro de 2017, durante um de seus shows na Hammersmith Arena. Recebi um SMS do Harry Lambert dizendo ‘ok, nos encontre na porta do palco’. Foi insano — um mar de garotas, homens e mulheres gritando e passando mal, sendo levados por ambulâncias… fiquei tipo ‘que merda é essa?’, mas enfim encontrei a porta e fui até uma mulher que vestia um enorme casaco vermelho e disse: ‘Oi, estou aqui para ver Harry Styles’. É claro que ela riu de minha cara, disse até algo tipo ‘Quem diabos você pensa que é?’ e eu disse, ‘serei o designer dele’. Não sei de onde tirei a coragem! Ela respondeu, ‘é claro, venha comigo’. Então ela me acompanhou por entre a multidão e foi aí que conheci Harry. O resto é história, eu acho.”

Quanta orientação Harry lhe deu inicialmente com as roupas?

“Sendo honesto, Harry era exatamente como imaginava. Acho que Harry Lambert quem me deu referências para o primeiro trabalho que fiz com ele. Não foi um brief restrito, mas a princípio só tive um dia ou dois para juntar algo. Isso atrapalhou um pouco o processo. Foi mais sobre como eu via meus designs se adaptando a ele. Aí cheguei nessa reunião e falei ‘Vamos fazer babados!’. Foi uma loucura, e foi aí que Harry se envolveu mais e me guiou na direção que ele queria. Mas ele era tão aberto para o que via nele, e eu queria uma certa elegância antiga ao invés de um gostosão de jeans colados e camisa pulando no palco – que pode funcionar e é maravilhoso – mas queria uma estética bem mais romântica. Vê-lo se apresentando no palco, ele é tão explosivo e incrível dançando e se mexendo… Escuta, tenho muito respeito pela Gucci e pelo que fazem por ele, mas devido a esse relacionamento ele estava vestindo muitos ternos, então senti que poderia oferecer algo mais fluído, com uma silhueta diferente e tal. Até mesmo a roupa que desenhei para ‘Lights Up’ não tinha mangas e as calças tinham um pouco de flare, então ele podia dançar e fazer aquele movimento com a pélvis que ele ama.”

A roupa para ‘Lights Up’, quando você começou a trabalhar neste momento de estilo particular para ele?

“Estava voltando do meu hiato em Los Angeles durante o verão, após terminar na Gucci, então estava exausto. Eu estava em Nova York e Harry [Lambert] entrou em contato para dizer: ‘Ei, não sei se você está disposto a fazer isso, mas Harry amaria que você fizesse algo para o próximo vídeo’. Tudo extremamente secreto, é claro. Tudo o que ele me enviou foram duas cores pantone de azul com uma nota: ‘Ele precisa estar nesse tom de azul; Não posso contar muito mais’.  E eu estava tipo, bem, ok. E na época eu não estava bêbado… Mas digamos que estava me divertindo em Nova York e era muito tarde da noite e Harry [Styles] estava lá gravando sua capa da Rolling Stone e, por coincidência, seu estilista estava tipo, ‘Você pode me dar algumas ideias muito rapidamente. Ele precisa ser capaz de se mover e precisa parecer que está prestes a subir no palco e conquistar o mundo’. Então pensei: ‘movimento’, ‘dominar o mundo’ e ‘palco’ e comecei a trabalhar…”

Você fez esse design logo de cara? 

“Sim, eu estava em um bar, [The Bowery Hotel], então pedi um guardanapo ao barman e ele me entregou este pedaço de papel e fiz um garrancho e enviei para Harry imediatamente. Ele ficou como, ‘Isto é perfeito’. Então fiz muitos outros esboços na época, mas ele gostou deste, era tão fácil e limpo e me lembra um pouco dos ‘Dog Days’ de David Bowie, mas mais brilhante e alegre, com menos linho e cabelos longos.”

Você teve tempo para provações [de roupa] e tudo mais?

“Erm, não! Nós fizemos a peça em literalmente três dias. Voltei de Nova York com um esboço e eles estavam eminentemente saindo em um avião para fazer o vídeo. Então, pousei em Londres, fui em todas as minhas lojas favoritas de tecido em SoHo, correndo igual um homem desequilibrado com todas essas amostras de tecido Pantone. Tenho dezenas de fotos de todos esses diferentes tons de azul. Acabamos usando um moiré de seda azul, pois precisava ser resistente à água, ou não resistente à água, apenas ser capaz de trabalhar com água, de modo reflexivo e brilhante sem ser muito pesado e nem muito quente, pois o vídeo estava sendo filmado na América do Sul. E nós não tivemos tempo para fazer uma montagem, então tive que colocar toda a roupa em mim. Harry e eu temos proporções corporais muito diferentes, então tivemos muita sorte. Lembro que eles voaram para a América do Sul para gravar o vídeo e Harry me enviou uma mensagem de texto: ‘[A roupa] serviu!  Funcionou!’ E eu estava no céu, porra. Não dormi por três dias seguidos usando essa roupa, então fiquei emocionado.”

Essa não é a primeira roupa que você faz para Harry Styles. Onde estão armazenadas todas essas incríveis peças únicas? Por certo este arquivo está preservado em algum lugar?

“Não posso dizer onde está localizado, mas tudo vai para um arquivo. É basicamente como uma geladeira gigante – um cofre congelado – em algum lugar de Londres onde não vou divulgar. Mas as roupas têm vigilância 24 horas, que você pode ver através de um iPad, feito especificamente para as roupas, e todas foram congeladas criogenicamente a tempo de preservá-las. Isso também é o mais surreal para mim. Depois de sua primeira turnê solo que eu produzi 14 ou 15 roupas – ele usou seis ou sete – eu me perguntava onde estavam os outros e ele falava: ‘Não se preocupe, eles estão todos sob vigilância’. Eu fiquei tipo, ‘Oh, isso é chique’.”

Você pode nos dizer o que vem a seguir para você e o senhor Styles?

“Hum, deixe pensar no que posso dizer. Acho que as pessoas devem esperar algo muito louco e fabuloso. Não posso falar muito. Com Harry, espero que isso seja apenas o começo e, enquanto ele estiver evoluindo na sua própria música e eu estiver evoluindo enquanto designer, que possa trabalhar em mais projetos, roupas e… coisas!”

Você escuta a música antes de fazer as roupas para ele? 

“Acho que a maneira como ele fala da música e do processo é realmente uma influência pra mim enquanto designer. Tive a sorte de vê-lo no estúdio durante o verão, e presenciar a paixão e as ideias… sou alguém que falo muito com as mãos e ele também, então parece que ele está orquestrando seu próprio universo. Mesmo a maneira como o vídeo de ‘Lights Up’ foi provocado, nunca é apenas música para ele, assim como para mim nunca são apenas roupas – é a mensagem também… Isso é o que me inspira. Espero que eu consiga ouvir pequenos teasers de músicas novas ao longo do tempo, apesar de eu sempre ter as coisas dele meio que repetidas no estúdio, de qualquer maneira… Rock e Roll estilo old school e traços de Harry Styles ao longo do caminho.”

 Você já se sentiu intimidado pelo fato de que esses designs farão parte do legado musical de Harry?

“Honestamente, pela perspectiva do design, eu não me preocupo, porque quando ele me diz que ama algo nada mais realmente importa. E, por não estar apenas desenhando uma camiseta preta ou uma calça simples, estou fazendo uma declaração, então isso realmente tira a pressão de mim. Não me preocupo com isso se ele também não se preocupa. Eu me preocupo mais com uma costura se abrindo. Lembro que ele usou algumas roupas para sua grande turnê na Ásia e fiz todas em minha máquina de costura, que custou 50 libras, enquanto comia nuggets às cinco da manhã. Eu ainda estava estudando, e não tenho um ateliê adequado, então são essas preocupações técnicas que são as coisas que me estressam. As pessoas não sabem disso, mas há uma foto na Rolling Stone em que ele está quase nu segurando uma raquete de pingue-pongue e a legenda é algo como ‘Harry esperando que seu traje seja consertado’ e era a minha peça e o zipper tinha acabado de estragar. Mas ele meio que disse: ‘Vamos correr esse risco de moda juntos’, então nada mais importa. Como eu disse, se ele gostar, estou feliz.”

Já sentiu que está o pressionando muito com seus designs? 

“[Risadas.] Ele é amável e acho que nunca quer dizer não a alguém, mas já houve vezes em que eu mostrei os designs — dos mais simples aos mais malucos — e ele fez uma coisa com os lábios em que ele sorri, mas na verdade diz ‘ok, não vamos tão longe assim’. Mas foi provavelmente com alguma roupa onde sua bunda estava à mostra ou alguma cama Liberace… ele é extremamente aberto, mas as vezes vejo em seu olhar que ele não está na mesma página que eu. Tento ler suas feições.”

Fonte: GQ

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